sexta-feira, 8 de março de 2013

Confiança

Saí de casa com o coração repleto de desejos. Não se mudam tanto os caminhos da vida sem essa força da vontade e dos sonhos. Como em tantas situações na vida, sonhei acordada com cada momento dessa viagem: seus perigos e suas alegrias, suas dificuldades e seus encantamentos. Mas desde antes de sair do Brasil, dei-me conta: esses desejos poderiam ser também as maiores armadilhas em meu caminho. Com atenção, já poderia ouvir o coração sussurrar baixinho certas palavras: fluidez, entrega, confiança.

Depois de uma semana longe pela primeira vez do conforto e calor da terra que me gerou, percebo que essas palavras são a chave e guiança nessa nova jornada. A mente é criativa; e tem o dom da verossimilhança. Como diante de um bom escritor de literatura, corre-se o risco de se mesclarem ficção e realidade. Pois são reais os efeitos da ficção criada pela mente e seus desejos. Quando confirmadas as previsões da mente, sentimos alegria. Quando não, frustramo-nos e mergulhamos num mar de tristeza. A mente é um escritor que quer ter controle de tudo. E que não percebe que sua história e seus personagens têm uma vida além dele, como um sopro que lhes dá movimento.

É, em suma, uma grande aventura abandonar o conhecido de sua terra natal, suas referências que lhe trazem conforto e sentido, e mudar-se para um novo país, onde tudo é novidade e ainda muito incipiente para trazer segurança. Não se trata aqui de uma viagem ou passeio. Trata-se de chegar a uma terra desconhecida e ter que procurar desde casa e emprego até amigos e afetos.

A grande armadilha, a qual mencionei, é a tentativa da mente, ou ego, de controlar todo esse processo. Mas a estória já tem vida própria e o papel do escritor aqui é observar e aceitar os personagens e enredos como se apresentam, usando sua inteligência criativa mais para tornar belos os detalhes, as curvas e nuances, garantindo que o fluxo ocorra.

Foi difícil para mim deixar que o fluxo corresse. Muitos foram os desejos. E dentro de nós há desejos similares e também díspares. Muitas vezes eles se somam e se contradizem em nossa mente formando um conjunto de vozes, falando sem parar, sobrepondo-se, criando suposições, e nos deixando apreensivos e com mal estar.

Pra ficar mais claro: inúmeras são as possiblidades de caminhos a percorrer aqui e de portas que podem ser abertas. E a mente, o ego ou os desejos, em suas múltiplas faces, querem resolver como e quando tudo vai acontecer, de jeito que imaginam que devem ser. E a grande lição dessa experiência é justamente o contrário: trata-se de abrir mão do controle e deixar que a vida te guie. É confiar na benignidade do universo e se entregar ao fluxo do que se apresenta. É se entregar de corpo e alma e poder dizer: eu confio.

Apenas com a confiança é que se pode viver um dia de cada vez. Apenas com a confiança é que se pode praticar Presença. E é somente com a presença que se pode ficar livre dos anseios do ego, do falatório da mente. Confiar, para largar as suposições sobre o futuro e viver o que a vida oferece agora. Deixar o futuro para o futuro. Pois o único real que possuímos é a grandeza do agora. Durante essa semana, foi esta a palavra entoada em meus ouvidos pelo meu Eu superior e por todos meus anjos: CONFIANCA.

E assim se deu minha principal experiência interior essa semana. Como era de se esperar, tendo em vista uma Lua em Câncer (que gosta do conforto do conhecido) e um Sol em Gêmeos (indeciso diante de tantas opções que se apresentam). Mas está aí o movimento da vida...

VIDA, enfim, que aprendo a encontrar por aqui, diante de uma nova amizade com a companheira de quarto, e também do reencontro com antigos laços, do frio, dos novos temperos, novos sotaques, novas paisagens, pubs, galerias de arte… E o principal é que aprendo a encontrar a mim mesma nesses novos ares. Lindos ares, que me receberam com a grandeza do pôr-do-sol, compondo a paisagem no meu voo de Londres a Dublin e abençoando e iluminando a nova jornada (foto). Logo abaixo estava um lindo mar de nuvens, que atravessamos para chegar a uma Dublin um pouco cinzenta, e também fria: ensinamentos sobre a transitoriedade da vida e sobre o desapego. E também sobre a luz que nunca deixa de brilhar, por mais que as nuvens a obstruam temporariamente.